A menina corou da ponta das bochechas até a raiz dos cabelos, não sabia como contar a Noah o que acontecera. E temia que o amigo ficasse nervoso, chateado, ou pior, com raiva. Não suportaria viver com a raiva de Noah. Era preferível morrer. Sem Noah ao seu lado, nada fazia sentido. Era isso, simples, fácil, indiscutível. Sem Noah, Clara podia morrer.
É claro que não morreria, mas a vida perderia todo o seu brilho, como em um filme em preto e branco. Nenhum charme, nenhum riso cúmplice à noite. Nenhum ombro amigo no qual deitar a cabeça, nenhum ouvido desarmado de críticas em quem se passa confiar. A vida lá fora continuaria igual, mesmas cores, e pássaros pousados na janela em uma manhã de domingo. As crianças continuariam correndo pelas ruas com o seu estardalhaço matinal, e as primaveras continuariam a existir com todas as flores do ipê amarelo na calçada, mas o mundo de clara morreria, ou a melhor parte dele. Sem Noah, não teria graça. É isso. E era também por isso tudo que o amigo merecia ouvir a verdade, toda ela, sem mentiras ou omissões.
-Dá-me uma estrela? - o garoto que lhe servia de travesseiro, sorriu também, não teve pressa alguma em responder. Primeiro, colocou atrás de sua orelha uma mecha de cabelo que caia-lhe nos olhos. -São todas tuas meu amor. Dou-te cada uma, em pequenos pedaços de meu amor.
-Mas ainda assim elas estarão lá no céu, onde qualquer um pode ver, e onde qualquer outro pode dá-las a alguém também.
-Mas só você terá as estrelas de meu amor, só você poderá as receber de mim, só a você elas representaram esse dia, só a você elas lembraram do meu perfume, só a você elas cantaram a nossa música. Qualquer outro pode tomá-las para si. Tu porém terás estrelas como ninguém. Assim como eu tenho a minha própria, pequena e um tanto orgulhosa, mas dona de todo um universo de estrelas que dou com toda a sinceridade de meu amor.
- O quê?
- Não sei. Só é estranho te olhar e não sentir absolutamente nada.

